terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Mulher Mente Neutra

Ela descobriu que estava com câncer aos 30 anos. Sem se desesperar, aceitou o desafio e está lutando bravamente desde agosto de 2010. Hoje, quase no fim de seu tratamento, Julia Campi, a Gianbir Kaur, se sente uma nova mulher, mais madura e elevada. Veja o que esta mulher radiante tem a dizer aos leitores da Mente Neutra sobre o processo de aceitação, cura e transformação.



Qual foi o seu primeiro pensamento ao descobrir que estava com câncer?

É difícil dizer exatamente qual é o primeiro pensamento. Na verdade, o que ocorreu comigo foi um turbilhão de pensamentos ao mesmo tempo: vou ter que retirar meu seio? Vou ter que fazer quimioterapia? Meu cabelo vai cair? Como assim, estou com câncer? Tenho 30 anos, não existe isso! Sempre fui saudável, não sinto nada, como pode ter um câncer em mim? Mas passado o susto inicial (que devo dizer, foi menor, pois desde a mamografia eu já desconfiava), tudo vai chegando no lugar.
Acho importante um tempo longe de tudo – no meu caso, fui viajar – para que possamos avaliar a nova situação e nos prepararmos para enfrentar o que tivermos que enfrentar.

Como é a sua visão da doença?

O câncer é uma doença multifacetada. É também um nome comum para uma infinidade de doenças, sendo que cada tipo de câncer tem suas singularidades. Posso falar de como é a doença para mim.Me lembro do dia em que fui conhecer o oncologista que me acompanha – Dr. Leandro Ramos – e ele me recebeu dizendo que enfim eu ia conhecer o “temido oncologista”. Brinquei com ele, dizendo que se eu fosse morrer disso, que era para me avisar logo, que eu iria pegar um avião e morrer feliz em Paris. Ele então leu meu relatório médico e foi me explicando a doença. No fim, disse a ele que, resumindo, se eu tivesse que ter escolhido, tinha escolhido um “câncer dos melhores”. Ele riu e concordou.

Desde o início, sempre pensei que a doença, seja ela qual for, vem como uma correção de rota. Acredito que para mim foi uma excelente oportunidade para rever minha vida, minhas escolhas, minhas relações, e para realmente promover uma transformação. Claro que penso que, se tiver que rever alguma coisa daqui para frente, que seja menos drástico (risos). Mas em nenhum momento pensei que iria morrer.

O que tem te motivado a lidar com isso de uma forma tranquila e natural

A primeira coisa é entender que você está com uma doença (eu sempre pensei “estou com uma doença, mas não sou doente”), e que diante disso, você precisa ter flexibilidade, sabedoria, força, determinação e resiliência para promover as mudanças necessárias. É realmente se tornar “paciente”, é enxergar aquilo como uma nova realidade.

Uma coisa importantíssima foi poder contar com o apoio de várias pessoas. Desde o primeiro momento, optei por não esconder de ninguém. Então, recebi muito cuidado dos médicos, dos enfermeiros, da família, dos amigos, da sangat do Kundalini Yoga, do pessoal do trabalho, enfim, fui muito bem acolhida em todos os lugares.

Mas o mais importante, o que realmente motiva, é encontrar o seu centro. Me sento todos os dias para meditar e essa disciplina me dá força.

Me lembro que no dia em que fui fazer minha primeira sessão de quimioterapia – a também temida quimioterapia – conversei com meu corpo, expliquei que vinha uma bomba, mas que era para ficarmos firmes. Que passaríamos por aquilo tudo muito bem. E foi uma bomba (risos)!. Me lembro de sentar no meu altar de noite, o corpo revirando, e falar “Ô Deus, Guru Ram Das, quem estiver escutando aí, me ajude, porque se for desse jeito por seis meses, não agüento, não!”. Acho que eles escutaram, porque daí pra frente foi tudo melhor (risos). Não são férias de verão, mas só tenho a agradecer, pois está sendo muito mais tranqüilo do que eu imaginava.

O que você diria para as mulheres que enfrentam este e outros dilemas parecidos?

Diria para terem coragem e para confiarem em si próprias. Tudo que precisamos está dentro de nós. Busquem ajuda, abram-se, não se isolem. Geralmente a doença é cercada de drama. Mas o drama, a auto-comiseração, a culpa, só criam uma atmosfera de mais dor. Façam a opção por viver este processo da melhor maneira que conseguirem. Quando fazemos esta opção, tudo fica mais fácil. Nosso corpo reage melhor ao tratamento, aprendemos mais, sofremos menos.

Pensem neste momento não como um castigo, um “ por que comigo?”, mas numa oportunidade de ter uma experiência. E é uma experiência muito íntima. Por mais que recebamos apoio, por mais que muita gente nos ajude, o processo é individual.

Como enxerga o seu papel de mulher no contexto de cura e transformação?

A mulher é um ser dotado de uma grande capacidade de criação e recriação. Ela consegue adaptar-se com mais facilidade a novas situações. E consegue, acredito eu, ser mais flexível e ter sensibilidade para se ouvir e perceber do que precisa. Isso é muito importante para a cura. Rever o que precisa ser mudado.
Em momento algum falo de culpa. Mas percebo hoje, após conhecer mais os mecanismos do câncer (aprendi muito lendo o livro Ânticancer, de David Servan-Schreiber) que tive responsabilidade sobre o desenvolvimento da doença no meu corpo. E isso, ao invés de me fazer sentir remorso e culpa, me deu uma força enorme por saber que, assim como eu ajudara a desenvolver a doença, teria também a cura em minhas mãos. Então, vi meu tratamento como algo que me competia, que eu poderia me ajudar e me transformar.

Gosto muito de uma frase do Yogi Bhajan, do livro do Programa Mulheres Radiantes: “Se você pode se lembrar quem você é, onde você está, o que você é, e o propósito de estar onde você está, você então pode superar tudo”. É isso, temos a capacidade de superar tudo.
Como você diria que foi o processo desde que descobriu o câncer até agora?

É um processo transformador. Me lembro de como eu era antes, e como sou agora. É incrível como suas prioridades vão mudando. No começo, pensava em como meu seio ia ficar, em como ficaria careca, que teria que parar de trabalhar, que teria que ficar mais em casa (o sistema imunológico fica fragilizado pela quimioterapia). À medida em que as coisas foram acontecendo, isso tudo foi perdendo importância, e fui vendo as coisas com outros olhos. Pode parecer bobo, mas tudo passa a ter muito mais beleza.

Um dia antes do meu cabelo cair, eu sonhei que ele estava caindo. E no sonho, chorei muito. Quando acordei e fui tomar banho, ele começou a cair. Não serei hipócrita, não é bom. Uns dias depois, ele caiu de uma vez. Acordei careca e triste. Estava sozinha em casa e chorei. Quem era aquela pessoa com uma careca branca me olhando no espelho? Daí, estava em frente ao computador, me preparando para tirar minhas duas fotos do dia (tiro duas fotos por dia, desde o início da quimioterapia, para acompanhar as mudanças no meu rosto). De repente, meu cachorro pulou no meu colo, me deu uma lambida no rosto e percebi que não tinha motivo para me entristecer. Isso tudo iria passar. E terminar bem.

Você acha que existe certo medo ou preconceito de se falar sobre o câncer (como se esta palavra fosse até proibida)? Como lidou com isso?

Existe, ainda hoje, muito medo e preconceito. Há alguns anos receber um diagnóstico de câncer era receber uma sentença de morte. E muitos de nós não lidamos bem com a idéia da morte. Muitas pessoas não conseguem lidar com o fato de que alguém próximo esteja com câncer, ou que vá morrer. Mas acredito que tenhamos que respeitar os limites de cada um. Algumas pessoas te dizem coisas às vezes sem pensar no efeito que terão. Mas muitas vezes isso não ocorre por maldade, mas por falta de cuidado apenas. Eu não tive medo de sofrer preconceito, acho que consegui lidar bem com isso. Eu chego na maioria dos lugares – consultórios, clínicas, laboratórios – e muitas pessoas me olham como se eu não pudesse estar ali, acho que pelo fato de ser jovem. Um homem num laboratório me disse literalmente isso. Respondi sorrindo para ele que também preferiria estar tomando sol na praia, mas que minha realidade naquele momento era aquela.
Por outro lado, muita gente nos surpreende justamente com o contrário. Lidam muito melhor com tudo isso do que esperávamos.

Ao mostrar a careca com um lindo sorriso no rosto e divulgar suas fotos sem cabelo, que tipo de mensagem transmitiu aos amigos e internautas?

Bom, nada disso foi premeditado. Quando fiquei sabendo que meu cabelo ia cair, mandei um email para meu primo, que é um ótimo fotógrafo – Rodrigo Bressane – e perguntei se podíamos fazer umas fotos quando eu ficasse careca. Ele então sugeriu que fizéssemos umas fotos antes também. E lá fui eu, que nunca gostei de tirar fotos, para o estúdio dele. E a primeira sessão, ainda com cabelo, foi ótima. Conversamos muito e foi bem divertido. Tempos depois, já com a “carequice”, como ele diz, fomos fazer a segunda sessão.

Quando vi as fotos, achei que tinham ficado muito bonitas. Resolvi colocá-las no Facebook, pois muitos amigos queriam ver como eu estava. Eu tinha colocado umas fotos “caseiras” também, com minha careca à mostra. Não posso afirmar o que as pessoas pensam quando vêem isso, mas acho que o que fica é que isso é algo normal, que não precisa de drama, que não precisa ser escondido, temido. Um dia com cabelo, um dia sem! Um dia doente, um dia curada!

Hoje, quase no fim do seu tratamento, como você se percebe?

Não me entendam mal. Pode parecer, lendo isso, que é algo fácil, tranqüilo. Não é, é difícil. Há dias bons e dias ruins, mas a vida também é assim. O que posso dizer é que, depois de tudo isso, me percebo hoje muito mais forte, com muito mais clareza, me conhecendo muito mais, tendo menos medo e sendo muito mais feliz e grata. Pode parecer clichê, mas passei realmente a enxergar a vida com outros olhos. A vida é muito bonita, é muito bom estar viva. Posso dizer, com certeza, que hoje sinto um amor e um respeito por mim mesma que não sentia antes. Só tenho a agradecer por tudo isso. Mas já avisei ao meu corpo para aproveitar esta fase, pois não ficaremos doentes nunca mais (risos)!

4 comentários:

  1. Sat Nam, meninas! Gostaria que a foto em preto e branco entrasse no meio da entrevista ou no final, mas só consgui que ela entrasse alí no início. Será alguém conseguiria trocar isso de lugar pra mim? Acho que tem muito mais a ver começar a entrevista com a foto dela sorrindo. Obrigada!

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  2. Muito bom! Tive vontade que o blog fosse público para que a entrevista fosse lida em larga escala!
    As fotos são belíssimas! Gostaria de dizer à Júlia que nas fotos ela está muito mais para uma monja do que para uma doente.
    Pensando no lugar de professor que ocupamos aqui, Bella, avalie se convém dar créditos aos livros que ela fala. São boas dicas para o leitor. Título e autor são suficientes para o leitor encontrar as obras.
    bjs, geo

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  3. Muito bom Ramjeet!

    Não vejo a hora deste blog se tornar público. Já há referências muito legais que gostaria que as pessoas vissem.

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  4. Também não vejo a hora de ser público! Acho que as palavras da Gianbir inspirariam muita gente!
    beijos

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